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Liderança do diretor de uma escola influencia no desempenho dos estudantes, aponta pesquisa

Estudo entrevistou centenas de profissionais de educação no Brasil

Quando se fala em políticas para melhorar a educação no Brasil, é comum abordar temas como infraestrutura, técnicas pedagógicas e gestão da aprendizagem. Porém, um estudo da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV EBAPE) acrescentou um elemento fundamental que pode fazer a diferença no aprendizado dos estudantes: a estrutura de liderança das escolas. 

De acordo com os resultados encontradas nesta pesquisa, escolas que promovem estruturas de liderança mais descentralizadas e horizontais, onde as decisões são compartilhadas pela equipe de professores, tendem a apresentar melhores resultados. Esse efeito é ainda mais forte quando o diretor da escola é simultaneamente um líder transformacional, ou seja, quando ele possui uma visão clara para o futuro da escola, sendo capaz de inspirar, motivar e direcionar a sua equipe na direção dessa visão.

O coordenador do estudo, o professor Filipe Sobral, afirma que a pesquisa se deu em várias etapas. Numa fase exploratória, os pesquisadores foram a campo e visitaram cerca de 20 unidades de ensino públicas no município do Rio de Janeiro. O objetivo das visitas era entender a dinâmica de funcionamento dessas escolas, a estrutura e as diferentes manifestações desses dois tipos de lideranças.

“Queríamos entender, em primeiro lugar, o contexto que estávamos estudando. Por exemplo, se havia espaço para a tomada de decisão compartilhada, envolvendo professores e funcionários, além do diretor, e quais os tipos de decisões que podem, ou não, ser compartilhadas. Queríamos entender também em que medida o diretor fazia diferença no ambiente escolar”, destacou Sobral.

O pesquisador ressalta que foram realizadas visitas em diferentes escolas, desde àquelas localizadas em regiões mais nobres da Zona Sul, até as escolas situadas em comunidades carentes. A partir dessas visitas exploratórias, foi desenvolvido um instrumento de coleta e escolhida uma amostra representativa de escolas, entre as mais de mil escolas públicas do Município do Rio de Janeiro. No final a amostra que foi utilizada no estudo consistiu de 142 escolas e 423 professores. 

“Desenvolvemos um aplicativo para veicular este questionário através do WhatsApp. Os profissionais deveriam avaliar o perfil do diretor, e em que medida os processos de tomada de decisão na escola eram compartilhados, se esses processos eram feitos em conjunto, se diferentes equipes eram incluídas como participantes no processo, entre outros tópicos. Esses temas são importantes, pois são essas decisões que costumam influenciar no rumo da escola”, disse Sobral.

Lideranças transformacional e compartilhada

O pesquisador explica que este estudo conseguiu comprovar que uma estrutura de liderança compartilhada, em conjunto com uma liderança transformacional, tem um impacto positivo no desempenho da escola como um todo, medida pela nota do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Segundo Sobral, isso acontece porque a equipe se sente mais empoderada. 

“Quando os professores têm influência na tomada de decisões escolares e têm participação significativa no desenvolvimento profissional e crescimento da escola, isso leva a uma maior sensação de empoderamento da equipe. Juntamente com um direcionamento claro dado por um líder transformacional, esse fenômeno se traduz em um desempenho superior das escolas. Através dessa autonomia, o colaborador empoderado trabalha mais e busca encontrar melhores processos para elaborar provas e atividades, o que pode promover que seus alunos tenham um melhor desempenho educacional”, explicou.

Na liderança compartilhada também há um consenso de que a tomada de decisão não está única e exclusivamente na mão de um responsável, pois essa decisão pode ser compartilhada por um grupo de trabalho. “Para que esta liderança ocorra dentro de uma escola, é preciso haver mecanismos que permitam professores e diferentes membros proporem sugestões e serem capazes de influenciar uns aos outros”, disse Sobral.

Contudo, o pesquisador chama atenção para o fato de que nem sempre essa liderança compartilhada será positiva. “Alguns estudos demonstram os efeitos negativos neste tipo de abordagem, pois se diversos indivíduos quiserem liderar ao mesmo tempo, sem um alinhamento estratégico, pode haver conflito entre eles e faltar uma direção clara acerca dos processos”, complementou.

Neste cenário, Sobral é categórico ao afirmar que, apesar de a liderança compartilhada demonstrar um potencial, este estudo constatou que ela é mais efetiva na gestão escolar quando o diretor também possui um perfil de líder transformacional:

“Quando falamos em um líder transformacional, estamos falando de alguém que consegue ter uma visão clara sobre o futuro da sua organização, e que consegue compartilhar essa visão com o quadro de funcionários. Constatamos que sozinhas a liderança transformacional e a liderança compartilhada não têm efeitos fortes, mas, se combinadas, há um aumento no desempenho da escola, que se traduz em melhor desempenho dos alunos e consequentemente, melhores notas no Ideb”, detalhou Sobral, ao reiterar que nesta pesquisa, a avaliação é sempre direcionada para as escolas de forma geral, e não para diretores ou professores.

“Apesar de estarmos falando sobre o perfil de liderança de um diretor, estamos comparando os resultados das escolas que contam com diferentes tipos de diretores. A avaliação é sobre o nível de desempenho das escolas, associadas ao tipo de liderança de um determinado diretor”, pontuou.

Impacto no setor de educação no Brasil

Sobral comenta que esta pesquisa, intitulada Joint effects of shared and transformational leadership on performance in street-level bureaucracies: Evidence from the educational sector foi publicada no principal periódico de Administração Pública do mundo, o Public Administration Review. 

“Este estudo surgiu de um projeto mais amplo, que tem como grande objetivo desenvolver ações e entender o impacto de um diretor enquanto líder de um grupo de trabalho no ambiente escolar. Nos baseamos na crença de que a educação é fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade, somado ao fato de que bons e maus líderes podem fazer a diferença neste cenário”.

Para o pesquisador, este projeto, que foi financiado pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), possui dois grandes impactos capazes de fazer a diferença no setor de educação. 

“O primeiro impacto é que evidenciamos a importância de as escolas escolherem diretores capacitados em liderança. Nesse sentido, é fundamental que os órgãos responsáveis preparem e treinem os diretores em liderança. O segundo, é a importância do compartilhamento de decisões e da possibilidade dos professores influenciaram o rumo da escola. Por isso, é fundamental que sejam criados espaços e mecanismos que facilitem esse compartilhamento de decisões”, declarou.

Caso este cenário ocorra, é possível alcançar melhores resultados em diversos setores, conclui Sobral. “Realizamos este estudo em colaboração com a Secretaria de Educação do Município do Rio de Janeiro, que possui a maior gestão de rede de escolas em cidades, totalizando aproximadamente 1200 unidades de ensino. Porém, os resultados deste estudo são válidos para todos os tipos de escola, e digo mais, são válidos para qualquer agência publica, organização, hospital, esquadras policial, e qualquer órgão dentro da esfera da administração pública”.

Confira o estudo na íntegra aqui.