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FGV lança catálogo que reúne 40 projetos culturais existentes no Complexo de Manguinhos

Romper com o silenciamento imposto às populações vulnerabilizadas. Este é um dos objetivos do catálogo, que reúne 40 projetos culturais na comunidade de Manguinhos, intitulado “Estratégias Culturais em Manguinhos. Olhares sobre o cuidado em saúde mental e o protagonismo de moradores de favelas”. Lançado em 5 de outubro, em um evento na Biblioteca Parque de Manguinhos, a iniciativa é comandada por uma rede de parceiros formada pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Queen Mary University of London. O catálogo descreve a busca para gerar inclusão social dos indivíduos residentes no bairro de Manguinhos, através de iniciativas voltadas para promover a saúde mental, por meio de ações que investem em identidade local, pertencimento cultural e valorização histórica e social. 

Além de pesquisadores e parceiros das três instituições, a cerimônia de lançamento, contou com a presença da diretora da Rede de Pesquisa da FGV, Goret Paulo, o professor da Queen Mary University e diretor do People’s Palace Projects, Paul Heritage, o vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz, Rodrigo Correa de Oliveira, e o ex-diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP), e pesquisador da Fiocruz, Hermano Castro.

O Catálogo

No total, o catálogo reuniu 40 projetos culturais de diferentes naturezas, nas 12 regiões que compõem o território de Manguinhos. Embora seja impossível traduzir em números a expressão cultural desta população, as iniciativas foram divididas em seis categorias: esporte, arte e cultura, educação, comunicação, sustentabilidade, além de direitos humanos e cidadania, que buscam demonstrar como a população se organiza, resiste e sobrevive em meio ao cenário de desigualdade social. Para além da identificação destes projetos culturais, foram geradas informações básicas e links sobre cada um deles, bem como a devida maneira de acessá-los, como forma de facilitar o acesso a essas iniciativas.

Para a construção do material, os projetos culturais tiveram que se encaixar nos seguintes critérios: ser uma iniciativa cultural do território de Manguinhos, estar em plena atividade na atualidade, além de disponibilizar informações online e de acesso público. Este último pilar é um ponto importante do Catálogo, visto que ele é respaldado eticamente a incluir no levantamento somente as ações que disponibilizam informações de domínio público.

Capa do Catálogo

(Capa do Catálogo - Estratégias Culturais em Manguinhos. Olhares sobre o cuidado em saúde mental e o protagonismo de moradores de favelas.)

Desafios

Mesmo diante da parceria de diferentes instituições, este projeto encarou um desafio que foi a pandemia de Covid-19, responsável por impossibilitar a pesquisa em campo. No entanto, foi através deste obstáculo que o projeto passou a buscar por ainda mais colaborações, além de utilizar recursos de pesquisa para além da base de dados, como é o caso das redes sociais. Vale ressaltar que não somente a pandemia foi responsável por dificultar alguns processos deste projeto, como também foi um dos fatores que agravou a situação emergencial dos moradores do território de Manguinhos, visto que inúmeras atividades, inclusive as culturais, que são tão importantes para a resistência social da população, tiveram que ser interrompidas, devido a “correria pela sobrevivência”, conforme é exposto no Catálogo.

Cultura como forma de promover a saúde da população

Muito antes da pandemia, a necessidade de um projeto como este surgiu do apagamento da memória e das realidades locais, promovidas pelo sistema que historicamente posiciona as favelas como espaço de violência e conflito. De acordo com os pesquisadores Franciele Campos e Luiz Soares, as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a presença das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) contribuíram para o silenciamento de manifestações socioculturais, que ignoravam as formas daquela população de existir, se comportar e se expressarem enquanto indivíduos, seja através da inspeção de objetos pessoais como celulares, ou tentativa de controle sobre cortes de cabelo e formas de se vestir. 

“É neste contexto que, em 2016, jovens realizaram ocupações de escolas públicas de ensino médio em Manguinhos e apropriaram-se da sigla PAC para ressignificá-la: PAC virou ‘Por Amor à Cultura’. Mas que cultura? A nossa! Que é impedida de ser vivida por meio da presença militarizada da polícia dentro das favelas de Manguinhos”, dizem os pesquisadores no prefácio do catálogo chamado “Fazendo cultura em Manguinhos: movimentos de vidas em contracultura”. A fala dos pesquisadores vai de encontro a própria metodologia do projeto que entende a necessidade de incluir pesquisadores locais como forma de melhor representar a realidade daquela região e cumprir com critérios inclusivos na ciência.

Após a pesquisa realizada para a construção do catálogo, foram justamente os pesquisadores locais que incluíram outras iniciativas culturais, que não foram possíveis de serem identificadas somente pela pesquisa online. Além disso, esses pesquisadores foram primordiais para gerar uma aproximação entre o projeto e a comunidade, o que ocasionou em diferentes edições de rodas de conversa, com a presença dos líderes dos diferentes projetos sociais, que dialogavam sobre suas histórias, proporcionando melhor entendimento acerca da realidade daquela população.

A diretora da Rede de Pesquisa e Conhecimento Aplicado da FGV, Goret Paulo, destaca que esse relatório mostra que ações culturais podem aumentar o impacto de políticas de saúde, incluindo saúde mental. “Quando indivíduos se reúnem em rodas de samba, rodas de leitura ou para a prática de esportes trocam inúmeras informações acerca de direitos, sociedade, saúde, entre outros. Também através dessas conversas há os benefícios para a saúde mental. Então percebemos como ações culturais podem contribuir para a saúde física e mental das pessoas residentes em territórios em situação de vulnerabilidade, e como essas interações sociais facilitam a sua sobrevivência e reforçam a sua identidade”, declarou.

Para a professora da Escola de Ciências Sociais da FGV, Silvia Monnerat, que participou como pesquisadora do projeto, é de fundamental importância retornar ao bairro para apresentar os resultados que foram construídos de forma coletiva com os moradores. “Lançar o catálogo em um equipamento cultural do bairro, com a presença de iniciativas que não apenas fazem parte da publicação, como são centrais para a construção, movimentação e consolidação da cena cultural local, reflete o marco colaborativo subjacente ao desenvolvimento do projeto. Valorizar e contar a história desses coletivos e iniciativas contrasta com a narrativa de violência que, com frequência, se encontra relacionada ao local, construindo uma oportunidade de escuta e troca com aqueles que enriquecem as páginas da publicação”.

Parcerias e financiamento

Organizado por Ana Paula Guljor (Fiocruz), Silvia Monnerat (FGVCPDOC), Paul Heritage (QMUL) e Paulo Amarante (Fiocruz), o Catálogo teve origem através do Brazilian Accelerator Fund (BAF), um financiamento conjunto entre Fiocruz, Queen Mary e pelo Fundo de Pesquisa da FGV, que teve como objetivo a construção de uma equipe multidisciplinar para a elaboração de projetos de pesquisa. A parceria estratégica das três instituições caracteriza-se pela complementariedade das experiências: a Fiocruz, que fica localizada no próprio território de Manguinhos, da Queen Mary, que é comprometida em ser a universidade mais inclusiva do mundo, e a FGV, que alcançou o 3º lugar no ranking de mais importantes Think Tank do mundo e o 1º lugar na América Latina, segundo o Global Go To Think Tank Index Report, da Universidade da Pensilvânia, em 2021. Think Tank é uma alcunha concedida a instituições que desenvolvem estudos voltados para o desenvolvimento social e contribuem para o debate público a partir da aplicabilidade de suas pesquisas.